sexta-feira, dezembro 22, 2006

Que tipo de professor eu sou hoje?

Esta atividade surgiu como uma proposta interessante e desafiadora. A princípio, achei-a bastante densa e difícil – afinal, fazer uma reflexão profunda sobre o tema O que fez com que eu me tornasse o professor que eu sou hoje? não me pareceu ser algo simples de se escrever, como o preparo de uma pequena resenha de aula, a tradução de um texto de duas páginas sobre meio ambiente ou, mesmo, o preenchimento de conteúdos ministrados em uma aula de Ciências ou Biologia. Não. Refletir seriamente sobre minha trajetória profissional e pessoal, pensando sobre os aspectos que me levaram a tornar-me o profissional que sou hoje, transcende o simples pensar sobre a vida: requer uma viagem no tempo, nas emoções, nos momentos bons e nos momentos ruins também. O desafio, porém, foi aceito com alegria, pois este momento ímpar de quietude, de deixar a mente divagar plenamente sobre o passado e sobre o que foi sendo tecido ao longo de anos de experiência e vivência educacionais, é muito recompensador.

Minha experiência em sala de aula começou muito cedo. Aos doze anos de idade (isso mesmo, doze anos!), vi-me pela primeira vez às voltas com alunos, lousa e giz. Eu morava em São Paulo, no Bairro da Saúde, e participava das atividades religiosas de um convento. Fiz minha catequese e minha primeira comunhão lá. Uma das freiras encarregadas do ensino da catequese analisou minha participação no curso de catecismo e, um certo dia, convidou-me a participar de um projeto que o convento estava iniciando. Tal projeto envolvia o treinamento de futuros catequistas mirins: pré-adolescentes e adolescentes que tivessem um mínimo de “aptidão didática” poderiam ser selecionados para iniciar experiências de ensino no catecismo. Eu fui um dos escolhidos. Minha primeira turma de alunos tinha, então, cerca de sete crianças de 7 a 9 anos de idade. Eu, doze. Infelizmente, não guardei nenhum caderno de anotações das aulas de catecismo que eu ministrava no convento. Não me lembro dos rostos dos meus primeiros alunos, nem de seus nomes... um fato, porém, marcou profundamente este período, profícuo em experiências, receios, erros e alegrias: a “formatura” dos alunos na catequese mirim foi uma noite inesquecível! Nesta noite de formatura, os catequistas mirins receberam do pároco um crucifixo dourado; os alunos que estavam se “formando”, um crucifixo menor, prateado. Choro dos pais, emoção da platéia. Este evento didático marcou seriamente minhas futuras escolhas profissionais.

Aos treze anos de idade, meu pai foi transferido de São Paulo para Santos. Mudança de endereço, período de adolescência, adequações de corpo e de vida nova. Senti muito medo e muita solidão. Refugiando-me dos muitos receios que pairavam sobre minha cabeça adolescente em transformação e da lacuna deixada pela falta de meus vizinhos paulistanos – com os quais aprendi a viver cada dia de minha infância –, atirei-me aos livros. Eu sempre gostei de ler, sempre gostei de tentar viajar pelo mundo, pelas culturas e pelas línguas dos povos através dos livros, da música e das imagens. Nesta época, com os meus quatorze anos de idade, eu já havia lido todos os 15 volumes da Enciclopédia Delta Internacional que meu pai comprara com muito esforço, ao sair de São Paulo para Santos (ele nunca me falou nada a respeito, mas creio que a enciclopédia serviu-lhe, inconscientemente, como uma retratação pela mudança de residência que, no fundo, marcou negativamente minha pós-infância; pode ter sido, a meu ver, uma maneira de limpar seu mea culpa, mea maxima culpa...). Talvez, ainda, como um legado da infância tardia e da experiência bem-sucedida no convento, eu li, também, os 77 livros da Bíblia católica. Comecei a estudar japonês e inglês. Lia, lia, lia; lia muito, um pouco de tudo, todo dia.

A leitura marcou minha adolescência inteira. A paixão pela leitura impulsionou-me a devorar tudo que se relacionava com o saber, com o conhecimento, com a cultura. Passei a estudar, por volta dos dezesseis anos, música teórica de forma autodidata. Nesta época, estava no nível avançado do curso de língua inglesa. Recebi, mais uma vez, uma proposta desafiadora e que marcaria, agora, minha futura vida docente como um divisor de águas: a diretora da escola Fisk onde eu estudava convidou-me, no final de 1987, para dar aulas de inglês no curso Básico, para uma turma de iniciantes. Foi um convite aceito imediatamente. Há muito eu já vinha pensando seriamente em ensinar inglês a alunos em aulas particulares; o convite da diretora caiu-me como uma luva perfeita. Digo que este evento foi um divisor de águas porque, na verdade, deste ponto em diante a minha relação com a sala de aula passou a ser visceral: da sala de aula, obtive meu sustento durante todo o período pré-vestibular; da sala de aula, também, paguei todas as minhas despesas enquanto morador de repúblicas em Campinas (estudava em período integral na Unicamp e, à noite e aos sábados, dava aulas de inglês, paralelamente a serviços esporádicos de tradução que me eram oferecidos por diversos clientes), comprei meu primeiro carro, investi em cursos, viajei, participei de congressos e fiz um sem-fim de coisas que ocupariam muito espaço nesta página caso fossem relatadas uma a uma.

Acabado o curso de Ciências Biológicas na Unicamp (Bacharelado e Licenciatura Plena), fui convidado a coordenar os cursos de inglês da escola CNA de Limeira. Mais um desafio, mais um período de aprendizagem, compartilhamento de vivências e estudos. Aprendi muito sobre relações interpessoais, sobre psicodrama, sobre como melhorar a comunicação e a empatia com o público. Participei de diversos workshops sobre auto-estima, relações no trabalho, disciplina e motivação em sala de aula. Dois anos depois, já de volta a Santos, inicio minha carreira profissional como professor de Biologia e Ciências, em duas escolas particulares da cidade. Foram duas experiências muito interessantes. Apliquei parte das teorias que havia vivenciado nos workshops (principalmente as que se referem à interatividade professor-aluno, ensino-aprendizagem, relações interpessoais e comunicação pro-ativa) durante as aulas nestas duas escolas. Certamente errei muito, devo ter repousado parte das aulas em pensamentos espontâneos de anos e anos de ensino de línguas estrangeiras (muitas vezes calcado simplesmente em saberes empíricos), devo ter tido inseguranças e deslizes. Mas, olhando com calma neste passado nem tão muito distante assim, vejo que o balanço é muito positivo.

Em 2000, tomo coragem e inicio o Mestrado em História da Ciência, na PUC-SP. Novamente, um desafio grandioso que eu pretendia abraçar com unhas e dentes. Trabalhar em duas escolas privadas e em uma unidade escolar na Prefeitura Municipal de Cubatão – além de acompanhar o Mestrado – foi um caminho árduo, permeado por dezenas de noites passadas sem dormir e finais de semana passados em frente ao computador, rodeado de livros, anotações, xerox de artigos e capítulos de livros. A escolha pela História da Ciência foi baseada em inquietações que me acompanhavam há vários anos: por que a maioria dos professores, e também dos materiais didáticos utilizados em sala de aula, fundamenta-se invariavelmente em uma análise anacrônica, linearista e pontualística da Ciência? Por que se insiste em mostrar aos alunos que a Ciência é feita de grandes nomes geniosos que descobrem as coisas “por acaso”, por insights milagrosos e teorias surgidas do nada? Por que os alunos, em geral, não gostam de Biologia? Por que a Botânica é encarada, por alunos e professores de Biologia, como algo meramente decorativo, chato e difícil de ensinar/aprender? Estas perguntas não poderiam ficar sem respostas. Eram fundamentais demais para mim. Achava que os professores de Ciências, como eu, deveriam tentar contextualizar suas aulas, tornando-as mais realistas, mostrando aos alunos que a Ciência não é coisa de lunático, de gênio tresloucado ou de descobertas únicas e isoladas. Por esta época (2002), comecei a questionar profundamente minhas aulas, chegando a achá-las, depois de várias autoavaliações, sérias demais, preocupadas demais com a contextualização histórica, em detrimento das competências e habilidades que são necessárias ao aluno de hoje.

Nem todas minhas inquietações foram solucionadas durante o Mestrado. Para buscar novas saídas, e aprofundar os conhecimentos em Educação, busquei o Doutorado na Faculdade de Educação da USP. Obviamente, nem todas as respostas foram alcançadas. Ainda há, com certeza, um longo caminho pela frente. Mas posso assegurar, pelo menos até agora, que estou no caminho certo. Tentar responder a pelo menos uma de minhas eternas perguntas – O que é que faz um professor ser um bom professor, e o que faz um aluno ser um bom aluno? – seria um trunfo e a sensação de ter trilhado o caminho certo.

Chegamos ao ponto crucial desta reflexão. O que fez com que eu me tornasse o professor que sou hoje? Diria que uma gama de fatores diferentes poderia ser uma resposta satisfatória. Estes fatores incluem, entre outras coisas, uma boa dose de empirismo; a vontade de compartilhar conhecimentos e diferentes saberes; uma vocação talvez “inata” (será que posso ousar entrar neste aspecto, o do talento natural que é tão discutido em várias instâncias no meio psicopedagógico?) para ensinar; a eterna insatisfação com o status quo da sociedade e do mundo; a paixão pelos livros, pela cultura, pelas línguas, pela história e pela filosofia; o desejo sempre latente de querer aprimorar-me e formar mentes abertas e críticas; o sentimento quase jesuítico, manifestado lá no fundo da alma, de acompanhar o desenvolvimento dos alunos, de vê-los progredir em inteligência, em ânsia por mais conhecimentos; enfim, uma eterna e jovial vontade de entender o modus operandi da mente humana, de saber conhecer seus mistérios e saber que, ao ensinar, estou contribuindo para a formação de pessoas mais comprometidas com a humanidade, mais críticas e responsáveis para consigo mesmas e para com o mundo.

Relendo tudo o que acabei de escrever, acho que poderia considerar-me utópico. Mas, perdoem-me se estiver obcecado demais por esta idéia: quem pode tirar de nós o sonho? Meu sonho, com a cabeça bem erguida e o semblante lá nas nuvens, mantém meus pés, porém, bem fincados no chão. O sonho, a utopia e a vontade de querer abraçar o mundo com as mãos mantém-me vivo, esperançoso de que ainda há muito que mudar, de que ainda há muito a se fazer nesta Terra tão caótica. E ensinar foi a maneira que achei para acalentar e tentar alcançar este sonho.

5 comentários:

ROTARY CLUB DE TROMBUDO CENTRAL disse...

Acabei de ler o artigo e, confessor que fiquei extremamente satisfeito ao ver que existem ainda muitos professores que tem orgulho da profissão e que desempenham seu papel conscientes da sua responsabilidade diante da sociedade em que vivem e comprometidos com o aprimoramento da humanidade.
Lembrei de Cervantes e da obra magistral da humanidade: Don Quijote de La Mancha, o cavaleiro da triste figura e, antes de tudo um idealista que não se cala, que manteve sempre a luta contra a opressão, os maus costumes, em favor da ética e da justiça social. Quem sabe a metáfora mais adequada ao professor, não seja este maravilhoso personagem? Mesmo que infrutífero pareça ser o trabalho do professor, o tempo, senhor das certezas, colocará o professor à mesma altura dos grandes homens que deram sentido a trajetória do homem sobre o planeta.

Wilmerporciones disse...

Mesmo que infrutífero pareça ser o trabalho do professor, o tempo, senhor das certezas, colocará o professor à mesma altura dos grandes homens que deram sentido a trajetória do homem sobre o planeta.
Sem dúvida....de nada seria e seremos sem a daga pré-dita ou descrita em tempos presentes. Nada faria sentido sem um locutor ávido e devoto para suas anúncias e predileções formadoras do seu tempo. Digo sim e respeito vossas opiniões e sentido de ser...

Thiago disse...

Bom , o Fernando não podera me reconhecer agoramas no ano 2000 eu fui aluno dele , na escola Ulysses Guimarães fui dois anos seguidos aluno do Fernando, mas posso dizer como aluno que ele foi um otimo professor de Ciências , Fico feliz por você ter conquistado muitas vitórias e eu mais ainda de poder ter sido seu aluno parabéns.

Eliana disse...

Olá professor Fernando, ontem lembramos de você. Encontrei a Cidinha do CNA e lembramos dos bons tempos, lembra? Você sempre correndo, um meninão muito responsável e gentil. Senti saudade dos nossos papos e risadas, lembra dos piqueniques na coordenadoria?
Adorei sua reflexão pessoal, sei que você é um professor muito especial e me sinto meio testemunha da sua linda trajetória.
Um grande abraço,
Eliana

mariAna stravatti disse...

Olá Prof. !
Adorei suas palavras. Me serviram de incentivo.